quarta-feira, 12 de outubro de 2011

PARA REFLEXÃO


A MORTE DA TARTARUGA
MILLÔR FERNANDES
O menininho foi ao quintal e voltou chorando: a tartaruga tinha morrido. A mãe  foi ao quintal Com ele, mexeu na tartaruga com um pau (tinha nojo daquele bicho) e constatou que a tartaruga tinha morrido mesmo. Diante da confirmação da mãe, o garoto pôs-se a chorar ainda com mais força. A mãe a princípio ficou penalizada, mas logo começou a ficar aborrecida com o choro do menino. “Cuidado, senão você acorda o seu pai”. Mas o menino não se conformava. Pegou a tartaruga no colo e pôs-se a acariciar-lhe o casco duro. A mãe disse que comprava outra, mas ele respondeu que não queria, queria aquela, viva! A mãe lhe prometeu um carrinho, um velocípede, lhe prometera uma surra, mas o pobre menino parecia estar mesmo profundamente abalado com a morte do seu animalzinho de estimação. Afinal, com tanto choro, o pai acordou lá dentro, e veio estremunhado, e ver de que se tratava. O menino mostrou-lhe a tartaruga morta. A mãe disse: “está ai assim há meia hora, chorando que nem maluco. Não sei mais o que faço. Já lhe prometi tudo, mas ele continua berrando desse jeito”. O pai examinou a situação e propôs: “olha henriquinho. Se a tartaruga está morta não adianta mesmo você chorar. Deixa ela ai e vem cá com papai”. O garoto depôs cuidadosamente a tartaruga junto do tanque e seguiu o pai, pela mão. O pai sentou-se na poltrona, botou o garoto no colo e disse: “Eu sei que você sente muito a morte da tartaruguinha. Eu também gostava muito dela. Mas nós vamos fazer pra ela um grande funeral”. O menininho parou imediatamente de chorar. “que é funeral?” O pai lhe explicou que era um enterro. “olha, nós vamos à rua, compramos uma caixa bem bonita, bastante balas, bombons, doces e voltamos para casa. Depois botamos a tartaruga na caixa em cima da mesa da cozinha e rodeamos de velinhas de aniversário. Aí convidamos os meninos da vizinhança, acendemos as velinhas, cantamos o happy-birth-day-to-you pra tartaruguinha morta e você assopra as velas. Depois pegamos a caixa, abrimos um buraco no fundo do quintal, enterramos a tartaruguinha e botamos uma pedra em cima com o nome dela e o dia em que ela morreu. Isso é que é funeral! Vamos fazer isso?” O garotinho estava com outra cara. “Vamos papai, vamos! A tartaruguinha vai ficar contente lá no céu, não vai? Olha, eu vou apanhar ela.” Saiu correndo. Enquanto o pai se vestia, ouviu um grito no quintal. “Papai, vem cá ela esta viva!” O pai correu pro quintal e contatou que era verdade. A tartaruga estava andando de novo normalmente. “Que bom heim!” – disse” ela está viva! Não vamos ter que fazer funeral!” “Vamos sim, papai”- disse o menino ansioso, pegando uma pedra bem grande “eu mato ela”.
MORAL O IMPORTANTE NÃO É A MORTE, É O QUE ELA NOS TIRA.
FERNANDES, Millôr “morte da tartaruguinha”, In: Fábulas Fabulosas, 9ª Ed, Rio de Janeiro. Nórdica, 1985, p. 100-101

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